Wellness imobiliário na prática: 4 cases que ajudam a entender esse movimento

Luz natural, qualidade do ar, contato com a natureza, conforto térmico e ambientes projetados para favorecer a experiência das pessoas passaram a ocupar um espaço maior nas discussões sobre qualidade construtiva. Essa evolução acompanha um movimento mais amplo. Segundo o Global Wellness Economy Monitor 2025, do Global Wellness Institute (GWI), o mercado global de wellness imobiliário passou de US$ 225,2 bilhões em 2019 para US$ 548,4 bilhões em 2024. No mesmo período, o segmento cresceu a uma taxa média anual de 19,5%. A transformação também aparece na maneira como os projetos são concebidos. Neuroarquitetura, arquitetura biofílica, biomimética e frameworks como WELL e Fitwel oferecem diferentes instrumentos para incorporar e verificar atributos relacionados ao bem-estar no ambiente construído. Alguns empreendimentos ajudam a visualizar como esses conceitos podem assumir formas bastante distintas. Bosco Verticale trabalha a biofilia dentro da densidade urbana. Apple Park integra paisagismo e ambiente de trabalho em escala corporativa. The Edge combina tecnologia, eficiência operacional e qualidade ambiental. No Brasil, o PINAH mostra o avanço de padrões internacionais de certificação no segmento residencial. Os quatro projetos não representam uma fórmula única para wellness imobiliário. Eles ajudam a compreender como diferentes estratégias podem ser incorporadas ao projeto, à operação e à análise de qualidade de um empreendimento. Quatro projetos, quatro abordagens Projeto Local Principal abordagem Bosco Verticale Milão, Itália Biofilia aplicada à habitação vertical Apple Park Cupertino, Estados Unidos Integração entre natureza e ambiente corporativo The Edge Amsterdã, Holanda Tecnologia, eficiência e qualidade ambiental PINAH Curitiba, Brasil Bem-estar residencial com certificação WELL 1. Bosco Verticale: natureza incorporada à densidade urbana Concluído em 2014 no distrito de Porta Nuova, em Milão, o Bosco Verticale tornou-se uma das referências internacionais mais conhecidas de arquitetura biofílica em edifícios residenciais. Segundo a descrição oficial do Stefano Boeri Architetti, as duas torres possuem 110 e 76 metros de altura e reúnem aproximadamente 800 árvores, 4.500 arbustos e 20 mil plantas, distribuídas em cerca de cem espécies. Cada apartamento abriga ao menos duas árvores, oito arbustos e 40 plantas. A vegetação participa da própria concepção do edifício. O projeto busca ampliar a presença de biodiversidade em uma área urbana densa e criar uma relação mais direta entre moradia e natureza. É justamente essa integração que torna o Bosco Verticale relevante para a discussão sobre wellness imobiliário. A leitura é coerente com o framework 14 Patterns of Biophilic Design, da Terrapin Bright Green, que trata a biofilia como um conjunto de padrões de projeto, e não como simples presença ornamental de vegetação. O case também evidencia trade-offs de implantação e operação. A World Construction Network reporta que o custo de construção do projeto ficou cerca de 5% acima de um arranha-céu tradicional. Já o próprio Stefano Boeri Architetti descreve uma operação permanente de manutenção, com gestão centralizada da vegetação, podas externas realizadas por profissionais especializados, os chamados Flying Gardeners, e irrigação centralizada e monitorada remotamente. A análise, portanto, precisa considerar tanto os atributos incorporados ao projeto quanto seus impactos sobre construção e operação. 2. Apple Park: biofilia em escala corporativa Aberto aos funcionários em 2017, em Cupertino, na Califórnia, o Apple Park oferece outra leitura sobre a integração entre ambiente construído e bem-estar. Projetado em colaboração com o escritório Foster + Partners, o campus substituiu cerca de 5 milhões de pés quadrados de asfalto e concreto por áreas verdes e recebeu mais de 9 mil árvores nativas e resistentes à seca, segundo a Apple. O paisagismo participa de uma estratégia mais ampla de funcionamento do campus. A Apple informou que o complexo foi concebido para operar integralmente com energia renovável e que o edifício principal, com ventilação natural, foi projetado para dispensar aquecimento ou ar-condicionado durante aproximadamente nove meses do ano. O conjunto também inclui um centro de fitness de aproximadamente 100 mil pés quadrados para os funcionários. O caso é particularmente interessante porque desloca o wellness de uma discussão restrita à residência ou à hospitalidade e o coloca dentro da infraestrutura de uma grande organização. Áreas verdes, circulação, luz, ventilação e espaços dedicados à atividade física passam a participar da experiência cotidiana de trabalho. Ao mesmo tempo, a escala do Apple Park limita qualquer comparação direta com empreendimentos corporativos convencionais. O valor do case está na aplicação dos princípios e na integração entre paisagismo, arquitetura e operação, não na reprodução literal do projeto. 3. The Edge: quando tecnologia também participa do bem-estar Em Amsterdã, o The Edge mostra uma terceira possibilidade. O edifício de aproximadamente 40 mil m², projetado pela PLP Architecture para a OVG Real Estate, atual EDGE, tornou-se conhecido pela integração entre automação, eficiência ambiental e gestão dos espaços. Segundo a EDGE Technologies, o empreendimento alcançou 98,36% na certificação BREEAM-NL. A própria desenvolvedora também apresenta o edifício como um exemplo de construção capaz de gerar mais energia do que consome. A camada tecnológica participa diretamente dessa operação. A Deloitte, principal ocupante do edifício, registra a presença de mais de 28 mil sensores, utilizados para acompanhar ocupação, iluminação, temperatura, umidade, consumo de energia e necessidades de manutenção. A tecnologia, nesse caso, não funciona isoladamente. Ela permite que diferentes componentes do edifício respondam de maneira integrada às condições de operação e ao uso dos espaços. O case mostra como questões ambientais, tecnológicas e relacionadas ao bem-estar podem convergir dentro de uma mesma estrutura. Essa convergência é relevante para a discussão sobre qualidade construtiva porque amplia a análise para além dos materiais utilizados ou da aparência do projeto. Passam a importar também a forma como o edifício é operado, monitorado e adaptado ao longo de seu ciclo de uso. 4. PINAH: um marco brasileiro na certificação de bem-estar Os cases internacionais ajudam a observar mercados com histórico mais longo nesse tipo de desenvolvimento. O PINAH, em Curitiba, aproxima a discussão da realidade brasileira. Segundo a Construtora Laguna, o empreendimento foi entregue em 27 de agosto de 2024 e possui 32 residências. O projeto arquitetônico é do Baggio Schiavon Arquitetura, enquanto a consultoria de conforto, energia e bem-estar ficou a cargo da Petinelli. No diretório oficial do